Medo e confinamento: como cuidar da saúde mental em tempos de coronavírus?

Restrições de contato e de circulação pela cidade, medo de um vírus que pode fazer adoecer, grande preocupação com pessoas próximas que fazem parte do grupo de risco, medo de perder o emprego, de faltar remédio, incertezas econômicas – principalmente para quem é autônomo – e confinamento. As sociedades brasileira e mundial vivem um momento único na era da globalização, com o surto da COVID-19. Desde quando foi descoberto, em dezembro de 2019, o vírus vem se propagando. Hoje, dia 25 de março de 2020, há no mundo quase 400 mil pessoas contaminadas e mais de 17 mil mortes. No Brasil, são mais de 2.500 casos e mais de 50 mortes confirmadas.

Como o cenário de medo pode afetar nossa saúde mental? Como cuidar dela? Para responder essas questões, o Portal Health Connections conversou com o psiquiatra e vice-coordenador do Programa de Pós Graduação do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, Antônio Egídio Nardi. Ele acredita que o momento atual afeta muito a saúde mental das pessoas, que se sentem ameaçadas por algo que não veem e sobre o qual não têm o controle. De acordo com o especialista, chegam o tempo inteiro informações por diferentes meios, em alguns momentos tranquilizadoras e, às vezes, extremamente alarmistas, o que gera fobia e insegurança. “Passam a fazer parte do cotidiano pensamentos obsessivos de limpeza e ideias hipocondríacas, em que tudo passa ser sinal de infecção por coronavírus. Ficar preso é insalubre para a mente em qualquer circunstância, ainda mais quando não fomos preparados para este tipo de situação de confinamento com antecedência e não sabemos de onde virá o vírus. Tudo isso aumenta o nosso nível de ansiedade e a convivência em ambientes pequenos, por muitos dias, pode gerar conflitos, irritabilidade e a sensação de grave angústia”, destaca o psiquiatra.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país com o maior número de pessoas ansiosas: 9,3% da população. Dados de 2019 mostram que 86% dos brasileiros sofrem com algum transtorno mental, como ansiedade e depressão. O psiquiatra alerta que, neste momento, qualquer pessoa com um transtorno mental pode ter o seu quadro agravado, pela situação de estresse. A recomendação é manter o tratamento do transtorno mental de forma adequada. “É fundamental manter o tratamento e a psicoterapia por meio digital’, informa o médico. Nardi comenta que uma fase de estresse duradoura pode funcionar como gatilho para qualquer pessoa desenvolver um transtorno mental, mesmo as que nunca apresentaram nenhum tipo. “O estresse, associado a outros fatores, como riscos de doença, problemas econômicos, confinamento, funcionam como estímulos ao sistema nervoso central, que pode não reagir adequadamente e resultar em sintomas de depressão, transtornos de ansiedade, insônia, abuso de álcool e drogas”, explica o especialista. Segundo Nardi, “a saúde mental deve ser a prioridade de todos nós neste momento tão grave que estamos atravessando, pois, sem saúde mental, não há saúde”. Como recomendações, o profissional destaca a prática de atividade física regular em casa, meditação, yoga, realização de cursos on-line e também de atividades lúdicas que a família possa realizar para relaxar e interagir, como filmes e jogos.

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